Ela até que se esforça, mas cumprir todos os requisitos do “ser feminina” é um martírio. A sua incompetência para exercer esse papel é notória. Ela, ao contrário de outras do seu gênero, não possui uma memória semi-fotográfica; não se lembra de coisas como o que comeu no último almoço, ou qual a roupa que usou naquela festinha. Também não lida muito bem com a minúcia dos fatos; para ela o vestido da noiva é apenas um vestido branco, e nunca sabe quem foi que terminou o relacionamento, se foi o João ou a Maria, só sabe que eles terminaram. Quando alguém lhe pede para detalhar algo é um verdadeiro desastre, particularidades como hora, cor, tamanho, decoração, cardápio, nomes e similares para ela passam despercebidos. Na sua paleta, violeta e lilás são a mesma coisa.
Ela também tem a irritante tendência de não gostar do que todas as outras gostam: as rosas têm um cheiro desagradável de mato, todos os bebês nascem feios e com cara de joelho, novelas são uma chatice, comprar roupas e visitas ao shopping são as mais cruéis sessões de tortura. Ela também não é adepta a uma série de coisas: academia de ginástica, salão de beleza, creme para pele, maquiagem e salto alto estão entre as principais. Há ainda outras tantas que não entende: por que, quando perguntadas, as mulheres não respondem de chofre o que querem ou o que sentem? É alguma espécie de jogo de adivinhação que não lhe contaram? Para que serve tanta discussão da relação? O bom e velho diálogo rotineiro não existe mais? Por que existe o dia dos namorados? Por que alguém coloca silicone nos seios?
Mas as idiossincrasias dela não terminam aí. Ela também não tem o menor jeito para datas; esquece do aniversário de namoro – principalmente dos que só marcam os meses -, dos de amigos e parentes, e até do seu próprio. Nunca repara na roupa nova de uma amiga, do novo corte de cabelo da outra e leva três dias para perceber que o namorado tirou o cavanhaque. Detesta casamentos, desfile de moda e filme meloso. Vaidade para ela se resume ao necessário para ser higiênica. Se pudesse, não penteava os cabelos.
Há ainda outro problema: o tal romantismo! É complicado entrar no padrão de romantismo quando se prefere livros a flores. É que, para ela, desejar um presente com validade tão curta é um verdadeiro desperdício! Se pelo menos fosse de comer… É que ela também não sabe nada sobre calorias. Todo seu conhecimento de nutrição se restringe ao que é ou não saudável. A balança lhe é indiferente.
Contudo, em uma coisa ela é igualzinha às demais…
Um dia seu namorado ligou e, quase no fim da conversa, ela começou a chorar ao telefone.
- É que eu estou com tanta saudade de você, que me dá um aperto enorme no peito!
- Ah, meu amor – ele respondeu – Eu fico realmente encantado com este seu sentimento, mas eu sei que você está na TPM e isso não é você, são só seus hormônios. Daqui há alguns dias passa.
E ele riu. E ela chorou mais ainda e começou a rir também.
Assim como todas as outras, ela se transforma em algo absurdo quando está na TPM. Talvez seja isto que ainda lhe garanta o direito de se dizer feminina.

Sempre achei também que não me enquadrava nos padrões impostos de feminilidade. Sim, eu não gosto de Sex and The City, eu adoro insetos, não quero ser mãe e também prefiro qualquer coisa a ahopping center.
Mas lendo seu texto agora, descobri que, perto de você, Daisoca, eu sou uma Barbie.
=P
Perfeita a análise do sentimento… “não é você, são só seus hormônios. Daqui há alguns dias passa…” Gostei disso!! Muito bom!!! rsrsrs