Os livros com nossos nomes. A música que você aprendeu na aula e toca para mim. As palavras em hebraico. Os telefonemas no meio do dia. Os sustos atrás da porta. O meu bolo de limão. Os concertos da sinfônica. A praia que nunca fomos. Os beijos roubados. O profiteroles do Balangandã. O crepe do Sofia. Os seus óculos escuros que eu me fiz de dona. Os cartões-postais. O Pequeno Príncipe, edição francesa. Os filmes que você gravou e eu nunca assisti. A macarronada com muito, muito molho pomodoro. As conversas intermináveis no sofá. Os livros que lemos juntos. A espera pela virada da página. Meus dias de cólica. Os seus lenços bordados. As nossas viagens, as que fizemos e as que ainda iremos fazer. As nossas lágrimas. As minhas birras. As discussões sobre o dever e a necessidade. A trilha sonora do filme. As músicas de Bach. O livro que eu ainda não escrevi. O rodopio de valsa no meio da rua. A obra de arte na era de sua reprodutibilidade técnica. Os encontros no Dique. O seu guarda-chuva. O cochilo no sábado a tarde. A sua voz que reconheço na multidão de sons. O sorvete da Ribeira. Os passeios no Museu. A piscadinha cúmplice. A comida roubada na hora do almoço. A saudade na ausência. A expectativa da presença. A mordida na ponta do nariz. O eu-tu e o eu-isso. Os bilhetes escondidos nos livros. O Café da livraria. As ligações antes de dormir. Laila Tov. As bonecas de pano. As canetas de escrita fina. Minha mão que desliza sobre seu rosto. O álbum de fotos que ainda não temos. O filme na sala de arte. As nossas crônicas. As caminhadas pelo Corredor da Vitória. Meu caderno com folhas sem pauta. As suas gravatas. Nossas canecas de porcelana. Suas tentativas de me ensinar a tocar piano. O pôr-do-sol no Jardim dos Namorados. O aconchego do seu abraço. As surpresas sem data. As nossas lembranças. O dia primeiro. O nosso amor. A nossa vida. Tudo, tudo mesmo.
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